A bacia do Paissandu, no Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Lago Grande de Santarém, foi objeto de um amplo estudo conduzido pelo Grupo de Estudos Avançados em Gestão Ambiental da Amazônia (GEAGAA), ligado ao Instituto de Ciências e Tecnologias das Águas (ICTA) da Ufopa. O projeto, iniciado em 2024, recebeu o nome “Águas para a vida: Diagnóstico Socioambiental como estratégia de fortalecimento territorial da bacia do Paissandu” e envolveu de forma participativa moradores e lideranças comunitárias.
De acordo com o coordenador da pesquisa, professor João Paulo de Cortes, trabalhar com foco nas bacias hidrográficas possibilita um planejamento ambiental mais eficiente. “A forma natural de organização de território é a partir de suas águas e do relevo que as acolhe”, destacou.
Moradores como Maria das Graças Almeida, 58 anos, participaram diretamente do processo, auxiliando os pesquisadores na definição de estratégias. “Foi gratificante entender como está a bacia e relembrar as dificuldades que enfrentamos nas últimas secas, quando ficamos isolados e até barcos atolavam na lama”, contou.
Os dados levantados revelam mudanças significativas no uso do solo nas últimas quatro décadas. Desde 1985, a bacia perdeu uma área de floresta equivalente a 921 campos de futebol. A partir de 2005, com a criação do PAE Lago Grande, houve sinais de recuperação da cobertura nativa e reorganização do território.
Os resultados foram sintetizados em um policy brief lançado no evento Pré-COP 30, promovido pelo coletivo Guardiões do Bem Viver, com recomendações de políticas públicas para fortalecer as comunidades diante da crise climática. Entre os pontos centrais estão a regularização fundiária, saneamento e garantias de direitos fundamentais.
Além de relatórios técnicos, a pesquisa produziu cartilhas, mapas, maquetes em 3D e materiais em realidade aumentada, entregues às escolas e lideranças locais, garantindo a apropriação comunitária dos resultados.
Reconhecimento internacional
O estudo será apresentado no Adaptation Futures 2025, maior conferência internacional sobre adaptação climática, organizada pela ONU, que acontece de 13 a 16 de outubro em Ōtautahi Christchurch, Nova Zelândia. No dia 14, o professor João Paulo participará do painel The Nexus of Food, Water, Climate, and Community, destacando estratégias de adaptação da pesca em água doce.
Sobre o PAE Lago Grande
Criado em 2005, o PAE Lago Grande abriga cerca de 6.600 famílias em 154 comunidades, sendo um dos maiores assentamentos agroextrativistas do Brasil. Apesar do reconhecimento oficial, enfrenta pressões de mineradoras, madeireiras, agronegócio e pesca predatória. A ausência da emissão do Contrato de Concessão e Direito Real de Uso (CCDRU), aguardado desde a criação do PAE, limita o acesso das famílias a políticas públicas essenciais.
As principais atividades econômicas da comunidade incluem agricultura familiar, pesca, extrativismo e pecuária, atividades que hoje sofrem forte impacto da crise climática e da degradação ambiental.

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